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O Covil de Baduh

Blog EntryAug 9, '07 10:57 AM
for everyone
Ah... Dia de ir à biblioteca! Devolver os livros e, principalmente, pegar outros...

Não posso dizer que não usufruo nada do estado. Usufruo-lhe, como posso, a Biblioteca Estadual Celso Kelly - Av. Presidente Vargas, 1.261, Centro, Rio de Janeiro.

Não é nada, não é nada, lá existe uma edição completa das Memórias de Giácomo Casanova, em 10 alentados volumes, em bom estado. Há também alguns livros desgarrados de uma coleção das obras de Camilo Castelo Branco, edição recente, portuguesa, em excelente encadernação.

Em meio a alguns milhares de livros que jamais deveriam ter sido escritos - e muito menos publicados -, pode-se encontrar várias obras adoráveis, como por exemplo, os relatos completos de Spix e Martius - que são pura aventura, escritos em linguagem altíssima, mas, ainda assim, acessível -, vários livros dos melhores autores russos, além de uma quantidade bastante razoável de boas biografias.

Entra-se, quando está em funcionamento, por um funil que há na portaria e onde foram cravadas duas roletas de ônibus mesmo: uma para entrada e outra para saída. Não há sinalização e ambas giram em ambos os sentidos. Se você ao chegar escolher a da direita, não haverá o menor problema: estará já dentro. Se escolher a da esquerda, idem. Mas se o guarda, por acaso, estiver em seu posto e você houver "entrado errado", ele te pedirá para sair e depois entrar novamente, pela roleta certa. Entra-se pela roleta da direita e sai-se pela da esquerda, anotem aí. Repito: não há sinalização alguma.

Escreveu não leu, não abre. São "pontos-facultativos" surreais, dias feriados estranhíssimos e, principalmente, ele,  o fantástico Sistema. Vamos abrir um parágrafo para o Sistema, porque ele merece!

O Sistema são cinco PC velhos - três para utilização dos funcionários no registro de empréstimos, cadastros e devoluções - e dois outros para consulta do acervo, pelo público. Os três primeiros, quando têm lá as suas indisposições, paralizam completamente o empréstimo de livros. Nessas ocasiões, não raras, o leitor é recebido por uma quase exultante servidora pública, postada no limiar da porta de vidro que dá acesso aos desejados livros. Não se pode sequer entrar no reduto - e ela avisa: "Só devolução, assine aqui e coloque o livro neste caixote!" Se o infeliz usuário do serviço de empréstimos pergunta a data de normalização do Sistema recebe, invariavelmente, a resposta:  "Semana que vem deve voltar..."

O Sistema é tão fantástico que até já está merecendo outro parágrafo. E olha que merece mesmo! Nele, existe um pequeno menu, à esquerda da tela do PC, e dois campos (box) para a inserção do título ou autor a ser pesquisado, à direita. Antes de tascar lá, por exemplo, "Gabriel Garcia Marques", é fundamental fazer a escolha correta no menu: filme, slides, monografia, mapas... (tudo coisa que não existe ali!) e... onde estará a opção "livro"? Vai-se então ao balcão, fazer a pergunta à funcionária - que nunca é a mesma... Estou certo que vem gente de Saneamento Básico, Sinalização e Trânsito e sabe-se lá de mais que outras repartições públicas... Mas, para honra da casa, há, geralmente presente, lá no fundo, uma senhora idosa - que parece conhecer melhor o serviço. Foi dessa senhora que eu ouvi a voz, quase indignada: "Livro é material não projetável, claro!"

Não posso dizer que odeie o Sistema. Pelo contrário, já estive a ponto de dar um beijo e um abraço no PC das consultas. E olhe que eu falo mesmo com objetos, como bebedouros que não vertem água e outros seres aparentemente inanimados... Eu havia feito a seguinte pesquisa: "Miguel Torga". Resultado: zero Vagando pelos escuríssimos corredores de estantes, com minha indispensável lanterna de quatro pilhas, encontrei nada menos que nove livros de Miguel Torga, organizados e colocados no local correto, justiça seja feita! Na saída eu disse para o Sistema: "Grande piadista! Sempre me proporcionando as mais agradáveis surpresas... Malandrão!!" Que felicidade! Mas isto não foi hoje. Já faz tempo. Agora eu somente cumprimento, de longe, o velho e chalaceiro PC, o pândego terminal do Sistema.

O local é um pouco perigoso e já vou dizer porque. Mas, onde encontrar alguns livros maravilhosos, fora de catálogo, sem esperanças de reedição, senão num lugar onde quase ninguém os lê e estão tão bem guardados, relegados? Há goteiras em profusão quando chove. Mas, como Deus é literato, elas geralmente caem sobre os best-sellers e corredores vazios. Problemas mais sérios são os furtos.

Parece - é o que dizem os guardas, quando perguntados -  que alguns dos  estudantes da rede pública, talvez os mesmos que assustam e mantêm sob intimidação permanente seus professores, cometem ali o furto de livros. Muitos livros. Para vender. Também há a proximidade da Central do Brasil, um antro. Então há um sistema de segurança tosco.

Há escaninhos onde devem ser deixadas bolsas, sacolas e qualquer tipo objeto onde possa ser ocultado um livro. Deixa-se então, sob a guarda de um desconhecido, que varia de semana a semana, sendo, às vezes, um soldado do Corpo de Bombeiros, tudo o que não seja o livro a ser devolvido - e recebe-se um retângulo de papelão numerado para resgate dos pertences pessoais na saída.

Há sazões, ciclos, mas são eles aleatórios - dependendo da maré de rapinagem. Antes, era um fortão que examinava o livro e a papeleta de empréstimo. Este "um fortão" também muda amiúde. Somente o que não muda é o fato de que esse policiamento, quando feito, é centrado mais nos humores do vigilante que na confrontação entre recibo de empréstimo e exame  do livro portado pelo suspeito.  Fica óbvio que custa a esses homens fazerem as duas leituras: título do livro e título constante na ficha de saída! Então, um dia veio o "Fazeno favô, levante a camisa..." Ora, papagaios, se levantei!

Hoje estive lá. Quinta-feira, 9 de agosto de 2007. Levei a lanterna com as pilhas recarregáveis na carga máxima. Eu tinha um propósito;  sempre duvido de mim mesmo, sempre! Não é nada seguro confiar em si o tempo inteiro...

Examinei, pela enésima vez, os escuros mas bem sortidos corredores onde dormem os livros de autores brasileiros. Livro a livro, a maioria meus velhos e decepcionantes conhecidos. Quase todas as lombadas e muitas orelhas examinadas... Nada! Sem novidades promissoras. O que há de novo é frustrante. Mas não foi de todo inútil a minha busca...

Descobri ali, nessa garimpagem, um erro meu. Numa resposta aos comentários sobre um texto de minha pobre caneta "A Estupidez Letrada", atribuí a escrita de "Os Tambores de São Luis" a Antonio Callado, quando, justiça seja feita, de novo, quem fez enrubescer de vergonha um negro retinto africano foi Josué Montello, neste que é considerado o seu "melhor romance". Vai aqui o mea-culpa de um imbecil, eu, que faço confusões entre gêmeos e também com os siameses, sempre!

Celso Kelly, que dá nome à biblioteca, foi diretor geral do Departamento Nacional de Ensino do Ministéiro da Educação, no alvorecer dos Anos de Chumbo. Foi ele o responsável pela criação da primeira "grade-curricular" do curso de Comunicação Social, após presidir a Associação Brasileira de Imprensa (cuja carteira de jornalista, categoria sócio-militante, número 3287, a minha, eu rasguei em quatro no começo dos anos 90). Celso Kelly esteve na ABI, muito antes de mim, é claro, e não cheguei a conhecê-lo. Morreu quando eu ainda era uma criança de 10 anos de idade. Mas, vejamos algumas sutis ligações...

Josué Montello viveu uma vida chapa-branca longuíssima: diretor vitalício da Biblioteca Nacional (não confundir com presidente!) e idem, idem, do Serviço Nacional de Teatro. Amigo de Juscelino e de todos aqueles que o sucederam, sem exceções, até sua morte, em 2006. Compadre, vizinho, conterrâneo, cupincha e colega de ABL de Callado, quem lê um já tem o outro lido! Por sua vez,  Ana Arruda Callado, esposa de Antonio,  chegou ao patamar de Diretora "professora doutora" do Departamento de Comunicação Social da UERJ, de onde, ao que me conste, jamais saiu um jornalista sequer que prestasse! E assim vai caminhando a Cultura e a Literatura no Brasil, um pequenino grupo de compadres, que não larga o osso e, por outro lado, não produz nada significativo, além de causar malefícios incalculáveis às letras pátrias, já que abiscoitam sinecuras, vantagens, honras indevidas - pouco se lixando aos verdadeiros talentos que florescem e fenescem nas sarjetas do desconhecimento e do desamparo cultural.

Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant'Anna, familiarmente, marido e mulher, abiscoitaram também não poucas benesses dentro deste pequeno círculo de apaniguados. Não são poucos os casos. E, por tudo isto, pela tentativa de uma arte-funcionária, de um pequeno grupo de artistas consagrados pelos amigos, deu no que deu a nossa pobre literatura.

O maior autor brasileiro de todos os tempos, na minha opinião pessoal, Graciliano Ramos, sempre procurou contribuir com a Cultura e com melhoramentos gerais em nosso país - mas, um após outro, foi abdicando de cargos públicos, mesmo aquele em que foi eleito pelo povo - prefeito de Palmeira dos Índios - AL - por discordar do que via, querer fazer mudanças - e não haver como... Destino final: cadeia!

E, para que não se diga que não falei de nenhuma flor, Helio Gaspari, o maior nome das letras brasileiras atuais, mesmo não sendo um autor de ficção, nem mesmo nasceu no Brasil, mas sim em Nápoles, infelizmente... Escreveu a sua obra notabilíssima com o apoio conseguido fora do do Brasil, uma bolsa fornecida pelo
Wilson Center for International Scholars.

O chapabranquismo, torno a repetir, destrói, avilta, empobrece a obra de qualquer artista. A condição estável, sossegada, de servidor público é uma ofensa a quem lhes paga o salário, através de impostos recolhidos compulsoriamente.

Rio de Janeiro, 9 de agosto de 2007.

Baduh




Tema difícil, vasto. Não há nenhuma gratuidade na abordagem que vou fazer. Pelo contrário, trata-se de algo que anda a me roçar a raia do desespero...
Conheci tempos melhores. Há sempre o perigo de indivíduos centrarem as suas perplexidades no curto lapso de tempo de suas vidas, sem, no entanto, terem a compreensão que o afastamento propicia. Nem sempre isto é possível: tomar uma boa distância e enxergar o objeto de nosso estudo inteiro, como se estivéssemos em órbita, numa órbita perfeita - em termos de distância e visibilidade.
Aqui me lembro de Hesse enfocando, em "O Lobo da Estepe", suas perplexidades diante da chegada dos automóveis e do jazz. Do ruir de um tempo que mudava lentamente e que começava, subitamente, a acelarar e a trazer mudanças drásticas. Vivesse Hesse nos dias de hoje, ou pudesse adivinhá-los...
Mudanças drásticas. Às vezes chego a supor que o Destino, esse gozador louco e que nem mesmo deve existir, resolveu pregar-me a peça de me fazer presenciar o fim da humanidade, os últimos anos do homem sobre a Terra. Era só o que faltava...
Nasci no ano de 1956 e comecei a enxergar o mundo, com razoáveis olhos de ver, uns doze anos depois. Presenciei então a fase em que a nossa civilização passou pelas mudanças mais aceleradas, passou pelos maiores progressos, de toda a sua existência. Presenciei e sou testemunha de uma aberração que se poderia dizer sobrenatural. Progresso-progressão. Progresso desenfreado, cego. Progresso progressão-geométrica, onde o homem foi se desfazendo de sua alma, tentando despí-la, em favor de números e de máquinas que, cada vez mais depressa, passaram a simular o trabalho de um  deus desajustado.
E aqui desejo lembrar que o instigante fenômeno da progressão geométrica é mesmo aquele em que, ao partirmos da multiplicação de um número por si mesmo, e, nos resultados obtidos, idem, observamos, só para exemplificar, no percurso do algarismo dois ao número 65.536, uma longa viagem - sua chegada em apenas quatro ínfimos passos. Foi o que aconteceu conosco, exata e comprovadamente, nos últimos sessenta anos.
Sessenta anos, num gráfico de tempo em que representássemos o surgimento do homem sobre a Terra, usando-se o clássico modelo de 1 ano (365 dias), seria algo tão inferior a um segundo que nem vale a pena fazer a conta... E, por falar em contas, a próxima, que estamos efetuando, seria 65.536 x 65.636, que é igual a 4.294.967.296. Isso mesmo. Em cinco passos chegamos a mais de quatro bilhões, partindo do número 2.
Em sessenta anos, portanto, uma fração de segundo, aconteceram mais mudanças sobre a existência do homem que na longa sucessão de horas que vai do dia à semana e desta ao mês, até fechar-se o ciclo. E como tudo parece ser mesmo cíclico, estamos voltando à mais profunda, escura e assustadora barbárie -  em tempos high-tech.
Aqui, então, podemos deixar de lado este intróito chatíssimo, mas necessário, e, quase no final do artigo, falar das coisas comezinhas que eu queria comentar.
Estamos perdidos. Não haverá mais retorno. E não paramos, em momento algum, de fazer a progressão geométrica que resultará em nosso fim, enquanto civilização. O vilipendiado Malthus - eu mesmo o contestei, com indignação, em meus tempos universitários - tinha mesmo razão. Ele estava corretíssimo. Nós, não. O homem subverteu certos processos da natureza que proporcionavam um equilíbrio essencial - em nome de um progresso duvidoso e por vezes pernicioso. Sem predadores e colocado numa estufa esquizofrênica, tornou-se praga. Como uns coelhinhos que foram deixados na Austrália...
Nascido, criado e vivendo no Rio de Janeiro - mas tendo já varado o nosso país em todas as direções, minuciosamente -  e o restante do mundo em algumas - eu, estarrecido, constato que, dia a dia, mês a mês, aumentam em proporções alarmantes os números nas hostes do lixo-humano que foi produzido e deixado a vagar pelas cidades deste nosso país. Isto não é privilégio nosso, eu sei. Mas no Rio de Janeiro e em São Paulo atingiu-se já o paroxismo insuportável, inaceitável.
E não estou falando numa pobre gente famélica, vitimada. Estou falando em bem-nutridos e agitadíssimos - em sua alegria incontrolável, vândala - malfeitores sub-humanos, que não vestem camisas e não frequentam escolas porque já não querem, não pensam mais, agem por instinto bruto - não por escolha, mas por imposição de sua condição mental. Não têm nacionalidade, pátria sequer, porque não têm mais idioma.
E estou falando também, no lixo-humano que, enfarado pelas facilidades criminosas de suas vidas sem conteúdo, procuram uma diversão primária e primata naqueles varandões da mais luxuosa e cara avenida brasileira, atirando ovos e outras coisas nos passantes, por desfastio, por degeneração de espírito e mesmo de corpo. Por emporcalhamento de suas almas vazias, oriundas daquelas famílias portadoras de um egoísmo assassino e que foram, essas sim, as maiores responsáveis pela selvageria que dominou definitivamente as ruas do Brasil. E ninguém mudará isto jamais. Não há volta.

Rio de Janeiro, 6 de agosto de 2007.

Baduh




Blog EntryAug 3, '07 7:02 PM
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Outra vez, quem me morreu foi a vizinha de cima.
Era uma senhora bondosa que cuidava desveladamente de um casal de filhos, quase quarentões. Boa gente, todos eles.
Embora morando no mesmo pequeno prédio, há mais de vinte anos, a amizade entre a minha família e esta outra sempre foi daquelas mais saudáveis possíveis: nunca nos perturbamos mutuamente. Apenas nos limitamos aos simpáticos cumprimentos no elevador ou na portaria. E nada mais.
De qualquer maneira, eu senti esta morte - que ocorreu exatamente em cima de minha cabeça.
Estava lá a senhora, cumprindo algumas tarefas leves de começo de noite quando, subitamente, na cozinha, desmaiou e foi encontrada pela filha - a primeira a regressar a casa, vinda do escritório - ainda com um pano de pratos nas mãos.
Fui chamado, pela primeira vez em mais de vinte anos, através de um toque da campainha. Fiz o que devia: transportar dona D nos braços até o carro e dali ao hospital.
Uns dois dias depois fui avisado de que ela havia nos deixado. Foi uma morte abençoada, um bilhete premiado - daqueles que a gente pede para receber, mas teme não ser atendido: nenhuma dor; não tornou a despertar e, finalmente, partiu.
Pobres de nós, os vivos. Em menor ou em muito maior escala, todos nós, os envolvidos, sofremos com essa morte. Eu, de minha parte, não costumo aceitar convites para ir a festas e nem tampouco aos demais compromissos sociais corriqueiros, como formaturas, por exemplo. Mas jamais me recuso a ir prestar minha última e silenciosa homenagem àqueles com quem travei algum tipo de conhecimento e que partiram adiante de mim. E é sempre doloroso, porque sinto muita comiseração pelos que ficam.
Lá fomos nós, no rumo do S. João Batista, em pequena comitiva: oito apartamentos, oito famílias representadas. Saímos todos juntos e em hora marcada. Talvez isto fosse uma maneira de nos ampararmos mutuamente, diante da surpresa da morte. E nesta hora, acabei descobrindo que gosto de meus vizinhos - apesar de não frequentar-lhes as casas e nem conhecer suas vidas.
Lá estava a morta. Serena, rodeada de pessoas - umas que a amavam tanto! - e outras que lhe respeitavam, como eu. Nas duas horas que estive ali, antes do sepultamento, percorri corredores e capelas, gastando o tempo e, discretamente, observando desfechos alheios, de pessoas ainda mais desconhecidas para mim.
Havia um homem que não tinha quem o velasse. Ninguém. Estranhamente, o seu féretro estava coberto por uma bandeira de time de futebol, dos mais populares. E ninguém. Quem terá sido este homem? Teria afastado de si as pessoas em seus últimos anos de vida? Ou foi abandonado por elas? E por que? De qualquer maneira, ali, morto, nada mais o inquietava. Eu sim, vivo, fazia-me essas perguntas e procurava, ainda ali, naquele local de morte, um sentido, algum sentido para a vida. Mas é tão difícil...
É interessante uma pequena cidade mortuária: ruas principais, arborizadas, urbanizadas, coalhadas de estátuas e de jazigos luxuosos. E uma periferia, um arrabalde, sem adornos notáveis e parcamente cuidada. Sempre os vivos, os vivos, que enterram os mortos. Nenhum morto haveria de ter esta espécie de preocupação, se pudesse ainda tê-la. Ou se tivesse ainda que ter qualquer espécie de preocupação. Pobres de nós, sim, os vivos.
Findava o domingo. Entregamos o corpo de dona D de volta ao pó e voltávamos, em silêncio pesado, todos. Não pude deixar de quebrar este silêncio:
- No meu, não faltem.
Senti que, de alguma maneira, as respirações se normalizavam.
Perto do portão de saída, talvez por ser domingo, véspera de segunda, como disse um poeta, havia um caminhão coletor de lixo recolhendo uma grande pilha de caixões apodrecidos, carcomidos pelo tempo e pela terra, alças e frisos desprendendo-se. Me pareceu o fim do fim. Uma cena aviltante. Abria-se espaço ali. Isto sempre deve ter sido feito - mas eu nunca havia pensado a respeito. Talvez tenham escolhido o fim da tarde de domingo porque a vida, de alguma maneira, recomeça na segunda-feira...

Rio de Janeiro, 3 de agosto de 2007.
Baduh





Só depois lembrei do hospital. Bem depois. E foi lembrança rápida, embora daquelas intensas, que trazem consigo os aromas e as dores. Mas isto foi bem depois.
Primeiro veio a lembrança daquela manhã. Ventava alto, lá pelas copas das árvores. No chão, nada se movia. Manhã amena, coisa de abril ou maio talvez. E o silêncio.
A folhagem verde-nova brilhando antes do céu, azul puríssimo, sideral, bem ali acima do campinho - um terreno abandonado onde despejavam o lixo.
E a mosca. Foi ela, quase parada em seu vôo, brilhando verde-metálica, quem me despertou. Olhei o céu e vi o vento, nas folhas largas da amendoeira grande. E alto, altíssimo, o azul. Então foi que senti: estou acordado.
Mas agora me chamam e preciso ir. Talvez seja minha mãe. Tenho de ir e viver a vida. Afinal, ainda não completei três anos de idade, dois e pouco, parece.
Se cada despertar é um milagre, uma ressurreição, o primeiro deles, o despertar da consciência é uma ressurreição de fato. É a maior de todas as lembranças. Vive-se sessenta, noventa e poucos anos. Ou dez. Uns acham pouco, outros demasiado... Momentos de quase glória e de ruína; lembranças, esquecimentos... E o mais de tudo, loucamente, - aquilo que volta sem ser chamado - é, quase sempre, um momento que parece estúpido, insignificante em si.
O menino cresceu, vingou como a erva daninha num pasto, que apesar de cortada, arrancada, ninguém extingue toda. E, resistindo aos cortes, no pé, no coração, viveu. Varou o mundo-largo, mas também cumpriu as longas e penosas sentenças do tédio. Não há escolha. Nenhuma. Acontece.
Outra vez despertei. Já não era um menino. Pelo contrário, um homem velho e doente. Exausto.
Me lembro que era noite e que era tarde. O hospital, os cheiros. Meu peito doía forte e por causa da dor eu tinha a visão turvada por uma névoa seca. Ainda assim não pude deixar de notar uma criança clara, uma menina loura, que tinha os cabelos empapados em sangue e que partiu pouco depois de ter sido colocada ao meu lado, numa maca.
Não sei o tempo e o lugar. Isto não tem importância. Não havia luz elétrica e a penumbra passava à escuridão - em alguns pontos daquilo que parecia ser um grande quarto. A dor, ela mesma, foi me aliviando, colocando-me num estado de quase insensibilidade física. Mas o pensamento pulsava; o medo foi se transformando numa espécie de indiferença. À minha volta havia uma movimentação apressada de pessoas sem rosto. Depois, um cantinho da sala, onde a treva era densa, foi crescendo e espalhou-se - até tomar tudo. Então, acho que esqueci de mim.
Somente fui me lembrar, novamente, sob a amendoeira grande, encantado com as cores daquela mosca metálica que brilhava ao Sol.
Não tive sonhos e de outras coisas não lembro. A Morte não explica nada.


Blog EntryJul 13, '07 2:53 AM
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Estive hoje à tarde nuns sebos. Vinha de retorno da casa de um amigo, onde ganhei um livro, um abraço e o autógrafo do dono da casa. Estive feliz, mas poderia ter sido bem melhor...
Nada que me desse muito alento: mais um livro publicado às expensas do autor - que anda com algumas dificuldades em distribuí-lo, às duzias e em consignação, pelas livrarias do Rio de Janeiro.
Mas, eu estava nos sebos... Bem, andar pelos sebos é progama dos melhores que conheço. Encontrei num deles "O Bobo", do ultra-romântico Alexandre Herculano, autor que não é dos meus favoritos - mas cuja obra completa é obrigatória àqueles que, como eu, procuram compreender e melhor amar a Literatura Portuguesa. Grande surpresa numa etiqueta colorida, colada na contracapa:
"Ganhei este livro da FNLIJ - Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, seção brasileira do International Board on Books for Young Peoples - IBBY - IV Salão do Livro Para Crianças e Jovens". Editora Ática - Segunda Edição.
Detalhe desnecessário: livro virgem, ao custo de 2 reais.
O que esperar de pessoas cuja estupidez, a falta de sensibilidade, de tirocínio, os fazem pensar que uma criança possa compreender ou gostar de uma escrita enviesada, rebuscada e repleta de arcaísmos, como acontece em toda a obra de Herculano? Querem espantar definitivamente as crianças de perto dos livros? Pois se eu, leitor calejado por décadas, leio Herculano aos trancos e barrancos, voltando e remontando sentenças inúmeras vezes para poder compreender o autor! Não é a toa que tão pouca gente gosta de livros no Brasil. Desde a infância estamos sempre sitiados por todas as formas e maneiras possíveis de incentivos ao desamor literário. Os que mais incentivam o afastamento definitivo entre um jovem e aquilo que poderia vir a ser seu maior alento - livros! - são os próprios homens e mulheres de letras - professores ou autores - cuja visão desfocada e deslocada produz uma espécie de esquizofrenia paranóide, que os impede de discernir entre o seu gosto pessoal e aquilo que uma criança poderia vir a gostar, ou odiar.
Ah... Durante o chá, na casa de meu amigo, fui olhado como um morfético tarado, porque comentei que José de Alencar é péssimo autor, que índio arrancando palmeira imperial na base do abraço é mais um helenismo de Alencar - que renomeou Hércules como Peri e, no entanto, se esqueceu de trocar a história; que As Minas de Prata é para fazer mesmo uma criança sentir repugnância pelo que esteja entre duas capas; que a primeira impressão é a que fica... Fazer o que, se não gostaram? Lá fui eu me meter entre os doutores da Literatura Brasileira... Os fazedores de livros virgens...


Blog EntryJul 7, '07 7:21 AM
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Resolvi escrever algumas linhas sobre Camões. Vi, no Blog da querida Mandy, que ela não gosta mesmo do nosso velho e caolho pai!
É compreensível. Eu chamo a isto de paladar literário. Me lembra uma fruta, o genipapo. Eu tinha um tio, português, absolutamente vidrado em genipapo. Ele fremia, só em falar dessa fruta, de gosto extremamente marcante. Odeia-se. Ou ama-se. Não há meio-termo.
Camões tem a densidade avassaladora de uma colherada de genipapo gelado (é desta maneira que o apreciam os puristas: gelado e às colheradas, bem maduro). É como Clarice Lispector: extremamente marcante, com um sabor todo seu - que eu, infelizmente, não gosto.
Camões trouxe a furo a mais importante parte daquele nosso tumor de sofrimento e lirismo - que não parou jamais então de jorrar - às vezes - ou, pelo menos, minar alguma coisa ao longo dos outros séculos - os que vieram depois dele, Camões, e da abertura do nosso tumor poético por ele, Luis Vaz de Camões. Alguns exemplos de vozes claramente camonianas:

"Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!"
(Mar Portuguez - Fernando Pessoa - trecho)

“Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa…”

(Ruy Guerra - Fado Tropical)